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Camada 2 geopolítica

Diplomacia da peregrinação: o Hajj como poder brando e as relações com o mundo muçulmano

A custódia saudita dos locais mais sagrados do Islã como ativo de poder brando, a diplomacia do Hajj e as relações com o mundo muçulmano.

Donovan Vanderbilt · · 8 min de leitura
Geopolítica
O ambiente estratégico do Reino

Análise da diplomacia saudita da peregrinação: indicadores de poder brando do Hajj

A diplomacia saudita da peregrinação transforma a custódia de Meca e Medina em um sistema de poder brando que pode ser medido por cotas do Hajj, chegadas para a Umrah, receitas do turismo religioso e relações com o mundo muçulmano. A peregrinação anual do Hajj, um dos cinco pilares do Islã, leva aproximadamente dois a três milhões de peregrinos ao Reino por ano, enquanto a Umrah atrai outros dez a quinze milhões de visitantes. Essa responsabilidade de custódia é, ao mesmo tempo, fonte de legitimidade, instrumento diplomático e importante atividade econômica.

A identidade do Estado saudita está intimamente ligada ao papel de Guardião das Duas Mesquitas Sagradas, título adotado formalmente pelo rei Fahd em 1986 e usado por todos os monarcas sauditas desde então. Essa custódia proporciona ao Reino uma forma singular de influência junto à comunidade muçulmana mundial, de aproximadamente dois bilhões de pessoas, distribuída por diferentes países, culturas e sistemas políticos. A gestão do Hajj e a administração dos locais sagrados são observadas por todo o mundo muçulmano, o que as torna tanto um ativo quanto uma fonte de vulnerabilidade.

Historicamente, o Hajj serviu como espaço de engajamento diplomático: o governo saudita usa a ocasião da peregrinação para receber chefes de Estado, resolver disputas e sinalizar posições políticas. A reunião de líderes muçulmanos em Meca oferece uma plataforma natural para a diplomacia multilateral, anterior às estruturas institucionais modernas e dotada de uma legitimidade espiritual que fóruns seculares não conseguem reproduzir.

A dimensão econômica da peregrinação é expressiva e crescente. Antes da pandemia de COVID-19, o turismo religioso contribuía com aproximadamente sete por cento do PIB saudita, e as ambições do Reino no âmbito da Visão 2030 preveem uma expansão acentuada dessa contribuição. A meta de trinta milhões de visitantes da Umrah até 2030, apoiada por infraestrutura ampliada, processos de visto simplificados e uma experiência aprimorada para os visitantes, transformaria o turismo religioso em uma das maiores fontes de receita não petrolífera do Reino.

Dinâmica atual

A Arábia Saudita realizou investimentos sem precedentes na ampliação e modernização dos locais sagrados e da infraestrutura que os atende. A expansão em andamento da Grande Mesquita de Meca, que elevará a capacidade para mais de dois milhões de fiéis simultaneamente, é um dos maiores projetos de construção do mundo. A Ferrovia de Alta Velocidade Haramain, que liga Meca, Medina e Jidá, transformou a logística dos peregrinos, enquanto empreendimentos hoteleiros e de hospitalidade nas duas cidades sagradas ampliaram substancialmente a capacidade de hospedagem.

A gestão do Hajj vem sendo modernizada progressivamente com a adoção de tecnologia. Sistemas digitais de gestão de peregrinos, monitoramento de multidões por IA e sensores, recursos de vigilância sanitária desenvolvidos durante a pandemia de COVID-19 e aplicativos móveis para serviços aos peregrinos compõem uma digitalização abrangente da experiência do Hajj. Esses investimentos tecnológicos atendem tanto à eficiência operacional quanto à narrativa mais ampla de modernização e competência do Reino.

O sistema de cotas do Hajj, pelo qual a Arábia Saudita atribui a cada país de maioria muçulmana uma alocação para a peregrinação com base em sua população, funciona como instrumento diplomático bastante sutil. Ampliar ou restringir cotas oferece um mecanismo para sinalizar aprovação ou desagrado em relação a determinados países, e a gestão das listas de espera existentes em muitos deles dá à Arábia Saudita influência sobre governos que precisam administrar a demanda de peregrinos entre suas populações.

O Hajj também se tornou uma plataforma para demonstrar as reformas sociais da Arábia Saudita. O relaxamento das restrições a peregrinas, inclusive a eliminação da exigência de um guardião masculino, sinalizou uma mudança social progressista para o público internacional. Da mesma forma, a ampliação dos serviços, a melhoria dos protocolos de segurança e o aprimoramento geral da experiência dos peregrinos reforçam uma narrativa de competência e modernização sauditas que apoia a história mais ampla da Visão 2030.

O impacto da pandemia de COVID-19 sobre o Hajj foi dramático e revelador. A restrição da peregrinação de 2020 a aproximadamente mil peregrinos residentes no país, seguida da expansão gradual nos anos posteriores, demonstrou tanto a autoridade do Reino sobre os locais sagrados quanto sua capacidade de agir com decisão. A resposta à pandemia também acelerou a adoção de tecnologias digitais de saúde e de sistemas de gestão de multidões que aprimoraram de forma duradoura as operações do Hajj.

As relações com o Irã, o segundo maior país de origem de peregrinos do Hajj em termos populacionais, ilustram a complexidade política da gestão da peregrinação. A debandada de Mina em 2015, que matou mais de duas mil pessoas, entre elas um número significativo de iranianos, tornou-se um foco de intensa tensão diplomática entre os dois países. O boicote iraniano ao Hajj que se seguiu mostrou como falhas na gestão das peregrinações podem provocar crises geopolíticas; já o restabelecimento da participação iraniana após a reaproximação de 2023 demonstrou o papel do Hajj na normalização diplomática.

Implicações para a Visão 2030

O turismo religioso é um pilar da estratégia de turismo da Visão 2030 e uma de suas fontes de receita mais previsíveis. Ao contrário do turismo de lazer discricionário, a demanda por Hajj e Umrah é estruturalmente impulsionada por obrigação e aspiração religiosas, o que proporciona uma base de demanda relativamente insensível aos ciclos econômicos e às pressões competitivas. A expansão da capacidade da Umrah e o prolongamento das estadias por meio de experiências e atrações aprimoradas representam uma via de baixo risco para um crescimento significativo da receita não petrolífera.

Os investimentos em infraestrutura que sustentam a expansão das peregrinações também servem a objetivos mais amplos da Visão 2030. A Ferrovia Haramain, a ampliação do aeroporto de Jidá, o desenvolvimento hoteleiro e os programas de melhoria urbana em Meca e Medina geram empregos na construção, estimulam o investimento do setor privado e criam ativos de infraestrutura permanentes que beneficiam a economia em sentido amplo.

O dividendo de poder brando decorrente de uma gestão eficaz do Hajj é significativo para o ambiente internacional necessário à Visão 2030. A credibilidade do Reino como guardião dos locais mais sagrados do Islã também reforça sua credibilidade como lugar para investir, visitar e fazer negócios. Em contrapartida, qualquer falha na gestão do Hajj — em segurança, logística ou experiência dos visitantes — prejudicaria a reputação saudita em todo o mundo muçulmano e poderia afetar os fluxos de investimento e turismo dos quais a Visão 2030 depende.

A expansão do turismo religioso cria oportunidades para oferecer outros produtos turísticos da Visão 2030 aos mesmos visitantes. Peregrinos que visitam Meca e Medina são um público natural para outras opções turísticas da Arábia Saudita, incluindo locais de patrimônio cultural, espaços de entretenimento e experiências ligadas à natureza. As reformas dos vistos da Umrah, que prolongam a estadia permitida e autorizam visitas a outras partes do Reino, foram concebidas para aproveitar essa oportunidade de venda cruzada.

No entanto, a estratégia de turismo religioso envolve riscos associados à gestão de volumes gigantescos de visitantes. O impacto ambiental de milhões de peregrinos, a pressão sobre a infraestrutura urbana e os desafios permanentes de segurança para administrar multidões densas em espaços confinados exigem investimento contínuo e excelência operacional. As consequências reputacionais de um grande incidente durante o Hajj ultrapassariam em muito o impacto humanitário imediato e afetariam a posição da Arábia Saudita em todo o mundo muçulmano.

Avaliação de riscos

Cenário 1: sucesso da expansão do turismo (probabilidade: 45%) A Arábia Saudita alcança suas metas de turismo religioso, com trinta milhões de visitantes da Umrah por ano até 2030. Os investimentos em infraestrutura ampliam a capacidade e melhoram a experiência dos visitantes, e a contribuição econômica do turismo religioso cresce até se tornar uma das maiores fontes de receita não petrolífera do Reino. Os benefícios de poder brando se estendem pelo mundo muçulmano e apoiam o ambiente internacional da Visão 2030.

Cenário 2: crescimento limitado (probabilidade: 40%) Restrições de infraestrutura e logística limitam o ritmo da expansão, e a meta de trinta milhões de visitantes da Umrah não é alcançada no prazo original. A receita do turismo religioso cresce, mas fica abaixo das projeções, e a oportunidade de venda cruzada de outros produtos turísticos é aproveitada apenas parcialmente. Os benefícios de poder brando da custódia permanecem nos níveis atuais, sem melhora significativa.

Cenário 3: crise reputacional (probabilidade: 15%) Um grande incidente durante o Hajj ou a Umrah — causado por debandada, falha de infraestrutura, emergência sanitária ou episódio de segurança — provoca uma crise reputacional que prejudica a posição da Arábia Saudita no mundo muçulmano. O número de peregrinos cai e a controvérsia gera atritos políticos com os países afetados que perduram além da crise imediata.

Perspectivas

A diplomacia da peregrinação continuará sendo um dos ativos geopolíticos mais singulares e valiosos da Arábia Saudita. A custódia das Duas Mesquitas Sagradas proporciona uma forma de influência única nas relações internacionais e liga o Reino à segunda maior comunidade religiosa do mundo, em todos os continentes e culturas.

Para a Visão 2030, o desafio é maximizar o valor econômico e diplomático dessa custódia e, ao mesmo tempo, administrar as exigências operacionais, de segurança e ambientais de receber milhões de visitantes por ano. A expansão do turismo religioso é um dos componentes mais confiáveis da estratégia de diversificação das receitas da Visão 2030, pois se apoia em uma demanda sustentada estruturalmente pela obrigação religiosa.

Entre os principais indicadores a acompanhar estão o número anual de visitantes do Hajj e da Umrah, as receitas por peregrino, a utilização da capacidade de infraestrutura, as taxas de incidentes de segurança e o uso diplomático de encontros relacionados às peregrinações. A gestão saudita das cotas e das políticas de visto oferece sinais das prioridades diplomáticas incorporadas à administração do turismo religioso.