Análise da diplomacia cultural saudita: indicadores, poder brando e Visão 2030
A diplomacia cultural saudita é hoje acompanhada por indicadores práticos: crescimento do número de visitantes de AlUla, produção do setor cinematográfico, público de eventos culturais, emprego nas indústrias criativas e contribuição do turismo associada à Visão 2030. A emergência do Reino como ator cultural no cenário global representa uma das mudanças mais marcantes de seu posicionamento internacional.
Um país há muito percebido pelo prisma restrito da riqueza petrolífera e do conservadorismo religioso iniciou um ambicioso programa de desenvolvimento cultural e atuação diplomática para reformular percepções globais, construir ativos de poder brando e criar setores econômicos que contribuam para os objetivos de diversificação da Visão 2030.
A criação do Ministério da Cultura em 2018 institucionalizou as ambições culturais sauditas. Antes, a política cultural estava fragmentada entre várias entidades governamentais, e o ambiente social conservador do Reino havia limitado o desenvolvimento das artes, do entretenimento e das indústrias culturais. A criação de um ministério dedicado, junto à suspensão de restrições antigas ao cinema, à música e ao entretenimento com participação de homens e mulheres, desencadeou um programa de desenvolvimento cultural que avançou com velocidade e ambição notáveis.
O programa de diplomacia cultural opera na interseção entre a transformação social doméstica e a gestão da percepção internacional. Internamente, a ampliação das oportunidades culturais atende aos objetivos de qualidade de vida da Visão 2030 ao oferecer aos cidadãos sauditas entretenimento, expressão artística e enriquecimento cultural, mantendo gastos e talentos no Reino. No exterior, o programa projeta uma imagem de modernidade, abertura e vitalidade criativa sauditas que favorece o turismo, a atração de investimentos e o engajamento diplomático.
O patrimônio histórico e arqueológico da Península Arábica oferece uma base rica para a diplomacia cultural. Dos túmulos nabateus de Hegra à arte rupestre pré-islâmica de Hail, passando pelo patrimônio arquitetônico de Diriyah e pelas artes e ofícios tradicionais das diversas regiões sauditas, o Reino possui ativos culturais de real importância, pouco reconhecidos e desenvolvidos até recentemente.
Dinâmicas atuais
AlUla se tornou a principal vitrine da diplomacia cultural saudita. O desenvolvimento dessa antiga região de oásis no noroeste da Arábia Saudita — lar do sítio de Hegra, Patrimônio Mundial da UNESCO, e de milhares de anos de história humana — representa uma integração abrangente entre preservação patrimonial, turismo sustentável e engajamento cultural internacional. A Comissão Real para AlUla, presidida pelo príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, atraiu parcerias com instituições culturais francesas, arquitetos internacionais e marcas globais de hotelaria para criar um destino que pretende rivalizar com os grandes polos mundiais de turismo cultural.
A conexão francesa tem sido particularmente importante. A parceria cultural bilateral entre Arábia Saudita e França, formalizada por meio da estrutura de desenvolvimento de AlUla, levou ao projeto a experiência francesa em gestão patrimonial, curadoria de museus e turismo cultural. Colaborações com instituições como o Centre Pompidou e o Institut du Monde Arabe proporcionaram credibilidade e conhecimento internacionais, além de boa vontade diplomática com um importante parceiro europeu.
A indústria cinematográfica passou de uma situação quase inexistente a um setor em funcionamento em poucos anos. A Comissão Saudita de Cinema oferece financiamento, apoio regulatório e promoção internacional a cineastas sauditas, enquanto a construção de estúdios de produção e o desenvolvimento de programas de formação profissional criaram as bases institucionais de uma indústria cinematográfica doméstica. A Arábia Saudita sediou festivais internacionais, participou de grandes mercados globais de cinema e viu filmes produzidos no país serem exibidos em Cannes e em outros eventos de primeira linha.
A música e as artes cênicas foram liberadas de restrições antigas. Artistas internacionais agora se apresentam regularmente na Arábia Saudita, e temporadas de concertos com grandes nomes globais geram receitas de turismo e entretenimento. Talentos musicais locais estão sendo desenvolvidos por meio de programas educacionais e oportunidades de apresentação. O Reino investiu em espaços que vão de salas de concerto construídas para esse fim às enormes instalações de entretenimento previstas para Qiddiya.
A arte contemporânea recebeu apoio institucional substancial. A criação de novos museus, galerias e distritos artísticos, incluindo o desenvolvimento do distrito cultural JAX em Diriyah e de diversos projetos em Riade e Jeddah, oferece espaços para exposições e programas de artistas sauditas e internacionais. A participação saudita em feiras de arte, bienais e intercâmbios culturais internacionais cresceu consideravelmente, e a cena de arte contemporânea do Reino recebe atenção e análise crítica cada vez maiores no exterior.
As temporadas de Riade e Jeddah consolidaram os festivais anuais de entretenimento como eventos de grande porte. Esses programas, realizados ao longo de várias semanas, combinam esportes, música, apresentações culturais e entretenimento familiar em uma escala que atrai milhões de visitantes, nacionais e internacionais. Os festivais servem como prova de conceito para o setor de entretenimento permanente que a Visão 2030 pretende estabelecer na economia saudita.
Os intercâmbios culturais internacionais e as parcerias institucionais se expandiram em vários campos. A Arábia Saudita abriu escritórios culturais em grandes capitais mundiais, financiou programas acadêmicos e parcerias de pesquisa e sediou conferências e simpósios culturais internacionais. A Bienal de Artes Islâmicas, inaugurada em Jeddah, posicionou o Reino como guardião do patrimônio artístico islâmico, ao lado de seu papel como guardião dos locais sagrados.
Implicações para a Visão 2030
A diplomacia cultural atende aos objetivos econômicos, sociais e reputacionais da Visão 2030. As indústrias culturais e criativas — que incluem cinema, música, artes visuais, design, moda e turismo patrimonial — representam uma oportunidade significativa de diversificação econômica. As indústrias criativas globais geram mais de US$ 2 trilhões em receitas anuais e estão entre os setores de crescimento mais rápido da economia mundial. Embora parta de uma base pequena, a entrada tardia da Arábia Saudita nesse espaço oferece a oportunidade de construir uma economia cultural adaptada à era digital.
O turismo é o beneficiário econômico mais direto da diplomacia cultural. O desenvolvimento de AlUla, Diriyah, Hegra e outros sítios patrimoniais cria atrações que captam viajantes motivados pela cultura, um segmento turístico de alto valor e gasto médio acima da média. A riqueza cultural apresentada por esses projetos diferencia o Reino de destinos turísticos concorrentes no Golfo e amplia seu apelo para além do turismo de sol e praia.
A dimensão da transformação social é igualmente significativa. A ampliação das oportunidades culturais, do cinema e dos concertos às exposições de arte e aos festivais, contribui diretamente para os objetivos de qualidade de vida da Visão 2030. Ao oferecer aos cidadãos sauditas experiências culturais antes indisponíveis no país, o programa reduz os gastos culturais no exterior, retém talentos e cria um público doméstico para produtos culturais, que sustenta as indústrias criativas ao longo do tempo.
A vitalidade cultural contribui para atrair talentos. A ambição da Visão 2030 de atrair profissionais internacionais altamente qualificados depende de uma qualidade de vida capaz de competir com a de cidades globais consolidadas. Uma infraestrutura cultural formada por museus, galerias, espaços de apresentação e uma cena artística vibrante é requisito para atrair profissionais criativos, trabalhadores de tecnologia e executivos cuja presença é essencial à construção de uma economia do conhecimento.
O impacto reputacional da diplomacia cultural se estende a todos os compromissos internacionais da Visão 2030. Cada intercâmbio cultural positivo, filme saudita bem recebido, festival bem-sucedido ou exposição contribui para uma narrativa de abertura e modernidade sauditas que favorece a atração de investimentos, a promoção turística e o engajamento diplomático. A diplomacia cultural atua no campo da percepção e da identidade, reformulando gradualmente a imagem internacional do país.
Avaliação de risco
Cenário 1: Renascimento cultural (Probabilidade: 35%) O programa de desenvolvimento cultural da Arábia Saudita alcança massa crítica, gera reconhecimento internacional como ator cultural relevante e cria uma economia criativa autossustentável. AlUla e outros sítios patrimoniais se tornam destinos turísticos globais, e a produção cultural saudita conquista público internacional. A diplomacia cultural passa a contribuir significativamente para os objetivos econômicos e reputacionais da Visão 2030.
Cenário 2: Avanço incremental (Probabilidade: 45%) O desenvolvimento cultural avança de forma constante, mas enfrenta dificuldades para aprofundar as instituições, desenvolver talentos domésticos e superar percepções herdadas. O engajamento cultural internacional gera atenção positiva, porém não transforma a imagem global da Arábia Saudita. A economia criativa cresce, mas continua dependente de subsídios governamentais e talentos internacionais.
Cenário 3: Contradição cultural (Probabilidade: 20%) Tensões entre liberalização cultural e forças sociais conservadoras geram incoerências e controvérsias que prejudicam a credibilidade da diplomacia cultural saudita. Episódios de censura, restrições à expressão artística ou reação social à abertura cultural provocam críticas internacionais que contrabalançam a narrativa positiva. A diplomacia cultural se torna uma fonte de risco reputacional, em vez de benefício.
Perspectivas
A diplomacia cultural saudita é um investimento de longo prazo na identidade nacional e na percepção internacional, cujos retornos virão ao longo de décadas, e não de anos. O sucesso do programa depende do compromisso continuado da liderança política, do desenvolvimento da capacidade institucional e dos talentos domésticos e da gestão das tensões entre abertura cultural e conservadorismo social.
Para a Visão 2030, a diplomacia cultural é um multiplicador dos retornos de outros investimentos em turismo, entretenimento e desenvolvimento social. A narrativa de uma Arábia Saudita culturalmente vibrante, aberta e criativa apoia todas as dimensões do programa de transformação, da confiança dos investidores à atração de talentos e turistas.
Os principais indicadores a acompanhar incluem o número de visitantes e os gastos no turismo cultural, a recepção internacional das produções culturais sauditas, a escala e a diversidade da participação cultural doméstica e a trajetória do emprego e das receitas das indústrias criativas. A cobertura da imprensa internacional e pesquisas de opinião pública em mercados prioritários oferecem medidas do impacto da diplomacia cultural sobre o poder brando.