Avaliação da qualidade da educação saudita
Uma avaliação da qualidade da educação saudita precisa começar pela distância entre gastos e resultados de aprendizagem. O Reino investe aproximadamente 5–6% do PIB em educação, mantém dezenas de universidades públicas, enviou mais de 200 mil estudantes para bolsas internacionais e construiu uma infraestrutura física de educação — escolas, universidades e centros de pesquisa — extensa para qualquer padrão regional.
Ainda assim, empregadores sauditas relatam com frequência dificuldade para encontrar graduados sauditas qualificados. Avaliações internacionais de aprendizagem situam os estudantes sauditas abaixo das médias globais, enquanto o desemprego entre diplomados coexiste com a escassez de competências no setor privado. A transição da educação para o emprego apresenta falhas em cada etapa.
Essa desconexão entre insumos e resultados — entre o volume dos gastos com educação e a qualidade dos resultados educacionais — é um dos desafios mais importantes da Visão 2030. A diversificação econômica não pode ter sucesso sem uma força de trabalho capaz de competir em conhecimento, competências e produtividade, desafio que afeta diretamente os resultados da saudização. Formar essa força de trabalho exige não apenas mais educação, mas uma educação fundamentalmente melhor.
O lado dos insumos: quanto a Arábia Saudita gasta
Os gastos sauditas com educação são substanciais:
- Sistema da educação básica: aproximadamente 30 mil escolas atendem mais de 6 milhões de estudantes.
- Universidades públicas: mais de 30, várias com diversos campi.
- Programa de bolsas: o Programa de Bolsas Rei Abdullah, hoje reestruturado, enviou mais de 200 mil sauditas para estudar no exterior.
- Formação profissional: a TVTC (Corporação de Treinamento Técnico e Profissional) opera centenas de instituições de formação.
- Tecnologia educacional: investimento significativo em plataformas digitais de aprendizagem, acelerado durante a COVID-19.
A infraestrutura física da educação saudita é substancial. As escolas são bem equipadas, os campi universitários são modernos e a conectividade digital nas instituições educacionais é elevada para os padrões regionais.
O lado dos resultados: o que a Arábia Saudita obtém
Diante desses insumos generosos, os resultados de aprendizagem traçam um quadro mais preocupante:
Avaliações internacionais. O desempenho dos estudantes sauditas em avaliações internacionais (TIMSS e PISA) historicamente ficou abaixo das médias globais em matemática, ciências e leitura. Embora as edições mais recentes indiquem melhora, a Arábia Saudita está entre o terço inferior dos países participantes na maioria das medidas.
Rankings universitários. Universidades sauditas subiram em rankings globais — Universidade Rei Abdulaziz, Universidade Rei Saud e KAUST aparecem em diferentes listas das 200 melhores —, mas as metodologias dos rankings frequentemente premiam produção de pesquisa e citações, e não a qualidade do ensino ou a empregabilidade dos diplomados.
A exceção da KAUST. A Universidade de Ciência e Tecnologia Rei Abdullah é um verdadeiro centro de excelência em pesquisa, atrai docentes internacionais e produz estudos de nível mundial. Mas a KAUST é uma instituição de pós-graduação e pesquisa com alguns milhares de estudantes — não um modelo que possa ser ampliado para educar milhões.
Empregabilidade dos diplomados. Pesquisas com empregadores identificam repetidamente lacunas nas competências comportamentais dos diplomados sauditas — comunicação, trabalho em equipe e resolução de problemas —, nas competências técnicas, sobretudo na aplicação prática de STEM em vez da teoria, e na preparação para o trabalho. A passagem da universidade ao emprego é mal estruturada, com poucos serviços de carreira, estágios ou vínculos entre empregadores e universidades.
Estigma da formação profissional. Apesar do investimento em educação profissional, a sociedade saudita mantém forte preferência cultural pelo ensino universitário. As vias profissionais e técnicas sofrem estigma social, o que resulta em matrículas abaixo da necessidade econômica e excesso de matrículas em cursos universitários que formam diplomados sem absorção pelo mercado.
O desafio curricular
O sistema educacional saudita passou por reformas curriculares significativas, mas persistem desafios estruturais:
Ênfase histórica nos estudos religiosos. Historicamente, o currículo saudita destinou muitas horas ao ensino religioso, reduzindo correspondentemente o tempo para STEM, humanidades e competências práticas. A reforma curricular reequilibrou essa distribuição, mas seus efeitos levam anos para percorrer o sistema.
Abordagem pedagógica. A educação saudita tradicionalmente enfatizou a memorização mecânica, o aprendizado baseado em livros didáticos e o desempenho em provas, em detrimento do pensamento crítico, da resolução de problemas e da aprendizagem por projetos. Mudar as práticas pedagógicas requer não apenas novos currículos, mas a requalificação de todo o corpo docente — um empreendimento geracional.
Qualidade dos professores. A docência na Arábia Saudita não foi tradicionalmente uma profissão de prestígio, e os programas de formação de professores privilegiaram o conhecimento de conteúdo em vez das competências pedagógicas. A qualidade da instrução em sala de aula — o fator mais importante para a aprendizagem dos alunos — continua desigual.
Métodos de avaliação. Os sistemas educacionais ensinam aquilo que avaliam. Se as provas recompensam a memorização, os estudantes memorizam. A reforma das avaliações para testes baseados em competências e voltados à aplicação está em curso, mas incompleta.
Idioma de instrução. A maior parte do ensino universitário saudita é ministrada em árabe, enquanto a literatura internacional de negócios e técnica é predominantemente em inglês. A proficiência em inglês dos diplomados sauditas está melhorando, mas continua sendo uma barreira à competitividade internacional em muitas áreas.
O legado do programa de bolsas
O Programa de Bolsas Rei Abdullah (KASP), que no auge financiou os estudos de mais de 200 mil estudantes sauditas no exterior, representa um dos maiores investimentos internacionais em educação da história. Seu legado é complexo:
Resultados positivos. Dezenas de milhares de diplomados sauditas voltaram com qualificações internacionais, competências em inglês, experiência intercultural e redes profissionais. Eles ocupam posições no governo, nos negócios e na academia às quais talvez não tivessem acesso apenas pela educação doméstica.
Desafios. Nem todos os resultados das bolsas foram positivos. As taxas de conclusão variaram. Alguns estudantes frequentaram instituições de qualidade questionável. O custo do programa — estimado em mais de US$ 30 bilhões no total — levantou dúvidas sobre se o investimento poderia ter sido aplicado com mais eficácia na reforma da educação doméstica.
Risco de fuga de cérebros. Alguns diplomados sauditas, expostos às condições de vida e às oportunidades de carreira no exterior, optaram por não voltar ou retornaram com relutância. O programa criou uma geração com expectativas internacionais que a economia doméstica nem sempre conseguiu atender.
Reestruturação. O programa foi reestruturado para priorizar áreas estratégicas — STEM, saúde e tecnologias emergentes — e instituições de alta qualidade, incorporando as lições da abordagem inicial mais abrangente.
Reformas educacionais da Visão 2030
A Visão 2030 iniciou diversas reformas educacionais:
Modernização curricular. Currículos atualizados com redução das horas de educação religiosa, mais conteúdo de STEM, programas de programação e alfabetização digital e objetivos de aprendizagem baseados em competências.
Qualidade do ensino. Reformas de certificação docente, programas de desenvolvimento profissional e avaliação baseada em desempenho estão sendo implementadas para melhorar a instrução em sala de aula.
Participação do setor privado. Maior participação privada na educação por meio de escolas particulares, parcerias de formação corporativa e programas profissionais concebidos pelos empregadores.
Aprendizagem digital. Madrasati e outras plataformas digitais fornecem recursos de aprendizagem on-line, impulsionados pela experiência da COVID-19. A infraestrutura digital para a educação é sólida.
Educação infantil. Expansão de programas de pré-escola e jardim de infância, reconhecendo que intervenções de aprendizagem precoce têm os maiores retornos no longo prazo.
Ênfase em STEM. Maior destaque para ciência, tecnologia, engenharia e matemática em todos os níveis, inclusive escolas secundárias especializadas em STEM e cursos universitários.
A lacuna de capital humano
A distância entre o sistema educacional saudita e suas ambições econômicas pode ser quantificada em várias dimensões:
Diplomados em STEM. A Arábia Saudita forma aproximadamente 30 mil a 40 mil diplomados em STEM por ano. A economia diversificada prevista pela Visão 2030 precisa de muito mais, sobretudo em áreas aplicadas como engenharia de software, ciência de dados, biotecnologia e manufatura avançada.
Competências profissionais. Os setores de turismo, construção, saúde e manufatura precisam de centenas de milhares de trabalhadores com formação profissional que o sistema atual da TVTC não prepara com qualidade ou quantidade suficientes.
Competências digitais. Os jovens sauditas têm fluência digital como consumidores, mas suas competências digitais produtivas — programação, análise de dados, marketing digital e design de experiência do usuário — ainda estão em desenvolvimento e são insuficientes para uma economia orientada por tecnologia.
Competências comportamentais. A reclamação mais persistente dos empregadores — de que os diplomados sauditas carecem de comunicação, trabalho em equipe, iniciativa e resolução de problemas — reflete abordagens educacionais que privilegiam provas individuais em vez da aprendizagem colaborativa.
Comparações internacionais
Uma comparação entre a educação saudita e casos bem-sucedidos de transformação:
Coreia do Sul investiu fortemente na qualidade da educação — e não apenas na quantidade — durante sua industrialização, formando uma força de trabalho com bases sólidas em matemática e ciências que permitiram a rápida modernização industrial. A educação coreana não é perfeita — sofre críticas por pressão excessiva e conformismo —, mas forma diplomados com fortes competências técnicas.
Singapura construiu um sistema educacional de nível mundial investindo na qualidade dos professores, alinhando o currículo às necessidades econômicas e criando trajetórias que valorizam tanto a excelência acadêmica quanto a profissional. Seus professores são recrutados entre o terço superior dos diplomados e recebem formação rigorosa.
Finlândia demonstra que é possível alcançar qualidade educacional sem pressão intensa por provas, por meio do investimento no profissionalismo docente, na flexibilidade curricular e na equidade de acesso.
A Arábia Saudita pode aprender com todos esses modelos e adaptá-los ao seu contexto cultural e econômico. A lição comum é que a qualidade da educação depende mais da qualidade dos professores, da abordagem pedagógica e do desenho das avaliações do que do nível de gastos ou da infraestrutura física.
Recomendações
Transformar a educação saudita, da quantidade para a qualidade, exige:
Transformação docente. Tornar a docência uma carreira de prestígio, bem remunerada e com desenvolvimento profissional. Recrutar entre o quartil superior dos diplomados. Oferecer desenvolvimento profissional contínuo. Avaliar professores pelos resultados de aprendizagem dos alunos, não pela conformidade administrativa.
Revalorização da formação profissional. Elevar sistematicamente o status e a qualidade da educação profissional e técnica. Criar trajetórias que demonstrem que diplomados profissionais podem alcançar a renda e o padrão de vida almejados pelas famílias sauditas.
Integração dos empregadores. Exigir e incentivar a participação dos empregadores na elaboração de currículos, na colocação de estudantes e na avaliação de diplomados. Os empregadores sabem quais competências precisam; os sistemas educacionais devem ser concebidos para oferecê-las.
Reforma das avaliações. Substituir provas de memorização por avaliações baseadas em competências que recompensem pensamento crítico, resolução de problemas e aplicação do conhecimento.
Financiamento baseado em resultados. Vincular o financiamento universitário aos resultados de emprego dos diplomados, e não ao número de matrículas, criando incentivos institucionais para a qualidade em vez da quantidade.
Conclusão
O desafio educacional da Arábia Saudita não é a falta de recursos, mas a falta de resultados proporcionais aos recursos. O Reino gasta generosamente com educação e construiu uma infraestrutura física impressionante. Ainda não construiu um sistema educacional que forme diplomados preparados para a economia diversificada e baseada em conhecimento prevista pela Visão 2030.
Esse é o mais difícil dos desafios de reforma — mais difícil do que construir megaprojetos, abrir cinemas ou reestruturar ministérios — porque exige mudar a forma como milhões de pessoas ensinam e aprendem, um processo que leva uma geração, e não um ciclo de políticas públicas. As reformas em curso apontam na direção correta. A questão de que depende, em última análise, o sucesso de longo prazo da Visão 2030 é se terão velocidade e profundidade suficientes para fechar a lacuna de capital humano antes que a janela demográfica se feche.
Esta análise reflete dados publicamente disponíveis até fevereiro de 2026 e representa a opinião analítica independente de The Vanderbilt Portfolio. Não constitui aconselhamento de investimento.